4 de set. de 2012

J A N E L A S

O prédio em frente
lembra uma caixa de bijuterias
gavetas fechadas
gavetas acesas sem ordem
descombinadas, sem sono

Tantos sonhos engavetados
tantas dores engavetadas
tanto silêncio iluminado
tantas cortinas pra enevoar

O prédio em frente
lembra o prédio ao lado, o de trás,
e mais outro

Tantas vidas engradeadas
[nem todas acesas]
encaixinhadas
como vidrinhos coloridos
sem graça

T E I M O S A M E N T E

Recorro a certas palavras
e elas, teimosamente sem controle,
se tornam recorrentes

Então empurro algumas pra longe
e elas voltam, rodeando
Tento trancá-las,
escapam
Procuro ignorá-las,
provocam

Me resta deixar que sentem ao lado,
quietas e atentas,
e, quando menos espero,
se escrevem
me descrevem

16 de ago. de 2012

C I D A D E

Sempre se vê o asfalto trincado
[o olhar baixo é sempre uma constante]
No olhar erguido, levemente,
o cenário trincado

De um lado,  parede suja
do outro,      a porta trancada
                   vidros quebrados
                   a não resposta
                   um grafite estragado
                   resto de restos
                   a não pergunta

Tudo cuidadosamente fora do lugar
como se viva fosse a cidade
desconstruída de gente

9 de ago. de 2012

O L H A R E S

Com que olhos
eu olho em volta
ruas cheias
ruas de cheiros
mistura de dar vontades
de dar enjoo

Com que olhos
eu olho o cheiro,
a alfazema encoberta

com que olhos
nem olho e volto
esbarro em volta e tropeço

olho o que já não importa
até brotar o interessante

13 de jul. de 2012

C A M I N H O S

a filósofa filosofa
e pensa que pensa que pensa que prensa
que densa
tece pensamentos pelos cantos
caminhos, desvios
becos, dores e motivos
e conclui que conclusões não servem

se quisesse resposta definitiva, estática
teria seguido a matemática

21 de jun. de 2012

V E R D A D E J A R

Certas palavras amadurecem
outras caem do pé ainda verdes
verdejadas que foram
verdadejando em gotas
de sabor próprio

Palavras com som forte
[maior que o próprio significado]
que saem cantando
vermelhecendo em frases curtas
espalhadas
acalmadas
distraídas
traindo as intensões
como fazem tão bem

C O P O

meio vazio, meio cheio...
em que metade nos percebemos
se nem copo há no meio

19 de jun. de 2012

P R O T O C O L O

Já vi amores burocráticos
[daqueles que pegam senha pra ganhar beijo]
que fazem entrar na fila de formulários
não andam sem a via amarela anexada
carimbada, autenticada;
passam por um balcão
antes do guichê 8, 3º andar,
à direita.
Empacam até deferir os pedidos.
E por isso duram.

Já vi paixões tsunâmicas
que se acham no direito de atendimento preferencial
querem furar filas
e rapidamente descobrem
ter entrado na repartição errada
e acabam na calçada.

11 de jun. de 2012

R E S P O S T A S

Sempre se busca resposta
com perguntas cretinas, idiotas
e assim achamos explicações
também cretinas, idiotas
mas suficientes para encobrir
a falta de sentido
a lógica torta que se pede
mistérios inventados
para confundir

Mania chata essa de buscar verdades.

9 de jun. de 2012

T R A Ç O S

Risco os riscos?
na janela mal
sobram chuviscos

7 de mai. de 2012

L E T R A . S O L T A

Ler não me torna necessariamente um leitor
     daqueles atentos às entrelinhas

Escrever não me tornará exatamente escritor
     sabedor das vírgulas bem colocadas

Rabiscador em certas horas, não passo disso
Rascunhador de momentos soltos
Escriba de palavras gastas
Rascunhador de emoções simplórias

Escrevinhar não me torna nada do que não sou
     só me distrai

G E S T O S

Alguns gestos são simples
um simples olhar de longe
que se fez perto
que se faz calmo
que se fez direto
que se faz
apenas
apenas deixando que se faça
o gesto amplo